Simpatia parcial e confiança

O que Fukuyama (1996) e Granovetter (2000) estão, no fundo, criticando, é a crença dos economistas numa natureza humana fundamentalmente egoísta. Tal crença, que alimentou e ainda alimenta muitas filosofias,
encontra uma de suas mais importantes críticas na tese do filósofo David Hume (1983). Para este, a visão do egoísmo como fundo da natureza humana é a saída mais fácil para quem procura pensar a sociedade. O que
Hume sustenta é outra posição, que não exclui o egoísmo, mas o coloca como caso particular de algo mais geral: a parcialidade de nossa natureza. Na afirmação de Deleuze, em sua interpretação de Hume:

'Caso se entenda por egoísmo o fato que toda tendência persegue sua própria satisfação, coloca-se apenas o princípio de identidade, A = A, o princípio formal e vazio de uma lógica do homem, e ainda de um homem inculto, abstrato, sem história e sem diferença. Concretamente, o egoísmo designa apenas alguns meios que o homem organiza para satisfazer suas tendências, em oposição a outros meios possíveis. Esses podem ser a generosidade, a hereditariedade, os costumes, os hábitos. Jamais a tendência pode ser abstraída dos meios que se organiza para satisfazê-la.' (Deleuze, 953, p.34)

A tese central de Hume (1983) é a de que nossa generosidade é limitada por natureza. O que nos é natural é uma generosidade limitada. O homem seria, então, muito menos egoísta do que parcial. A verdade é que o homem é sempre o homem de um clã, de uma comunidade. Sendo assim, a essência do interesse particular não é o egoísmo, mas a parcialidade. Com efeito, os egoísmos apenas se limitariam. Daí a necessidade de invocarmos os contratos sociais, exatamente porque eles seriam uma forma de limitação de um egoísmo supostamente “natural” dos homens. Já com relação às simpatias o problema seria outro: é preciso integrá-las numa totalidade positiva. Como nos lembra Deleuze (1953, p.26), o que Hume reprova precisamente às teorias do contrato é de nos apresentar uma imagem abstrata e falsa da sociedade, de definir a sociedade de modo apenas negativo, de ver nela um conjunto de limitações dos egoísmos e dos interesses, ao invés de compreendê-la como um sistema positivo de empreendimentos inventados. O problema da sociedade, nesse sentido, não é um problema de limitação, mas de integração. Integrar as simpatias é fazer com que a simpatia ultrapasse sua contradição, sua parcialidade natural. A estima, o respeito e a confiança são a integral das simpatias. Nosso desafio é estender as simpatias para que seja possível constituir grupos maiores do que aqueles envolvidos pela simpatia parcial. Trata-se de inventar os meios e artifícios para que os homens consigam estender suas simpatias para além de seu clã, família, vizinhança. Ou seja, trata-se de estender as simpatias para além daquilo que se configura ainda como uma parcialidade: as “comunidades” em seu sentido mais tradicional. Para nos constituirmos em sociedade, precisamos empreender a integração das simpatias de forma a constituir um todo maior. Os sentimentos de estima, respeito e confiança são exemplos práticos que apontam para os meios de integração de nossa simpatia com as simpatias de outros.

Rogério da Costa em 'Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva'