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Mercados são conversaçõesOs mercados digitais mostram a força da nova mídia que está se formando, num movimento de baixo pra cima. Onde a reverberação das vozes tem um sentido muito diferente do que as mídias tradicionais. Pessoas comuns estão conversando na rede e criando um diferencial. Essa conversação aponta para a revolução da voz. Os mercados sempre foram um fenômeno natural. Muito tempo antes do que o mundo dos negócios utilizasse o termo “market” para rotular categorias, as demografias, as regiões geográficas e outras abstrações. Os mercados naturais estão ocupados com vozes humanas (pessoas comuns e pessoas menos comuns também). Pessoas falando com pessoas sobre coisas que interessam a elas. Estas conversações acontecem também dentro das empresas. Entre empresas e clientes, mas sempre entre seres humanos que dividem interesses e paixões. A revolução, como eu vejo, é a restauração de um balanço natural do poder, um relacionamento natural entre oferta e demanda, entre vendedores e clientes. Assim que isso acontece. A voz falsa da propaganda das empresas, press releases e declarações de missão empresarial parecerão cada vez mais antigas e estranhas [Searls, Weinberger, Locke, 45]. Essas conversações não necessariamente precisam ser aleatórias. Podem ter um propósito. "Nós, hackers, estamos ativamente mirando a criação de novas formas de conversação desconectadas das instituições tradicionais", disse Eric Raymond. [Raymond, 20] Faz algum tempo que temos sugerido que o capitalismo vem sofrendo um processo de ruptura através das conversações da rede [Dimantas, Weinberger, ]. Essa afirmação parece ingênua. E, talvez, um recorte leviano que nos aponta para uma verdade anunciada. Realmente, quando analisamos de fora, desvinculados das idéias recorrentes, parece uma grande utopia. Tentamos provar o contrário. Rede pressupõe engajamento e imanência. Portanto, para entender essa ruptura temos que montar um cenário para a contextualização do que significa conversação. Não é tão difícil definir esse movimento. Zonas piratas emergem de uma rede catalisada pela conectividade cibernética. Hakim Bey denomina esse fenômeno como TAZ (Temporary Autonomous Zone). As idéias de Hakim Bey se espalharam no Brasil principalmente por meio da internet, o que faz muita gente pensar que a TAZ e suas técnicas de revolta cotidiana sejam voltadas à rede. Mas elas são extremamente corporais, físicas. Por mais que a internet possa ser considerada um lugar de relacionamento nada virtual - que também altera corpo e mente, além de movimentar toda uma rede de relações sociais e tecnológicas muito materiais - , Bey insiste que a TAZ deve evitar as mediações. Sejam telas de computador, instituições, TVs ou aparelhos. A internet é importante como uma ferramenta para criar TAZ . Mas não só: permite circular informações clandestinas, desenvolver a pirataria e ter acesso a bens proibidos via hackers. Além de possibilitar a existência de algumas estruturas não hierarquizadas de produção e divulgação do conhecimento. [Fernandes] Esse barulho das TAZes identificam e apontam para as mutações provocadas por uma sociedade que começa, sensivelmente, a acrescentar um viés conversatório aos meios de produção. Um novo sistema Mas será que um programa de computador pode ser revolucionário? O Linux é um sistema operacional, que significa que permite o diálogo entre o ser humano e a máquina. Podemos dizer que o Linux é um tradutor da expressão humana para linguagem binária. E vice-versa. Esta é a proposta do movimento dos códigos livres. Uma organização colaborativa , anárquica e desforme. Poderosa pela essência que une as pessoas num projeto comum. A rede faz este movimento aflorar. O Linux foi o primeiro produto moderno e competitivo criado num modo de produção não capitalista. Essas são mudanças que emergem do meio virtual. E devem repercutir construtivamente para outros setores [Himanen, 33; Torvalds, 68]. Mas o mundo dos negócios, filho pródigo do capitalismo, está engessado nas suas convicções. Novas idéias sustentadas em fatos reais são mostradas como se fossem apenas utopia. Lunáticos que não entendem o dinamismo do dinheiro. Pois o vil metal move o mundo. É verdade, no entanto, qual foi o investimento inicial no Linux. Nada. Apenas colaboração. E este nada está apavorando o grande monopólio. É difícil combater a organização de pessoas comuns. Estamos vendo o Linux, e outros programas abertos, aumentando a participação nos mercados. Não parece mais coisa de sonhador. É realidade. O grande diferencial deste sistema operacional está no modo de produção. Foi criado pela colaboração entre pessoas comuns. É curioso saber que todo este processo de criação foi comandado por um garoto de 20 anos e acabou envolvendo centenas de programadores espalhados pelo mundo. O livro de Linus Torvalds intitula-se 'Só por prazer'. Mas Linus não é o estereótipo do que conhecemos como um boa-vida. Ele trabalhou muito para criar o GNU-Linux, o sistema operacional mais aclamado nos últimos tempos. Entendo, contudo, que o prazer se confunde com o amor. O amor de viver, de trabalhar, de fazer as coisas que realmente nos importam, atendendo a uma inclinação vital. E Linus trabalhou com amor. Isto faz parte de uma nova maneira de pensar. Trabalhar para satisfazer as necessidades vitais. Buscar a satisfação nas tarefas rotineiras. Fazer da nossa existência algo mais importante. A internet facilita esta aproximação. Libera a mente humana para estabelecer a diversidade. O meio digital abre espaço para a criatividade. Estamos constantemente trocando informações e recriando conceitos, seja com programas, palavras ou imagens. O artesão volta à cena após tanto tempo de segregação [Levine, 45; Searls, 45, Raymond, 57].
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