Micromercados inteligentes

Podemos encarar a Internet de diversas formas. Os grandes portais repercutem o aprendizado desconectado. Repetem fórmulas de comunicação de massa tentando abarcar o maior número de visitantes com diversas opções de informação enlatada. As empresas, por desconhecimento da mídia, mostram apenas seus cartões de visitas virtuais. Com medo da transparência intrínseca da rede ficam caladas, esperando ver o que vai acontecer.

Os usuários, consumidores, clientes - ou seja, as pessoas comuns - não dormem no ponto. Desde os primórdios da rede, estas pessoas estão conversando de diferentes formas. Começaram trocando idéias pela BBS. Incrementaram o bate-papo na Usenet, e catalisaram os debates usando os grupos de discussão na Internet.

Hoje, essas pessoas encontraram nos blogs, fotologs e nos diversos ‘Orkuts’ uma nova forma de expressão. Um fluxo de informação anárquico, bagunçado e infinitamente mais poderoso do que todos os canais que conhecemos. Esses microcanais de comunicação existem porque existe audiência. É lógico que são micro-audiências, cuja somatória resulta em micromercados de dimensões incomensuráveis. Nada comparável aos canais tradicionais. Mas é uma tendência importante para quem pretende analisar a revolução digital.

Essa micro-audiência é especial. São pessoas que utilizam a Internet diariamente. Trabalham conectadas com o prazer. Afinal, esta é a vocação das pessoas. Fazer do trabalho alguma coisa mais interessante do que se deixar levar pelo marasmo do cotidiano. Creio que o anseio maior das pessoas é diminuir as fronteiras entre trabalho e entretenimento.

Pessoas comuns se dedicam cada vez mais na elaboração de um projeto pessoal. A maioria não está preocupada com estatísticas de visitação. O grande segredo é repercutir as idéias como legado à humanidade. Construindo um projeto de qualidade. Tratando cada leitor com a importância que merece.

Como resultado, os mercados estão ficando mais inteligentes, mais informados, mais organizados. Os mercados conectados estão conversando sobre as empresas. Independente da vontade delas. As pessoas estão falando o que bem entendem. Não estão preocupados em falar demais, citar fontes fidedignas, ou não. As companhias não podem parar este movimento. Os consumidores estão falando. Assim como, não podem parar os seus funcionários de conversarem com seus consumidores. A única opção é encorajar seus funcionários a conversar com os clientes. Eles vão trazer novidades à empresa. Eles ouvem, interagem com os mercados, e vão passar para adiante as suas conclusões energizadas. Os funcionários vão além do sentimento de "ser útil", e ficarão orgulhosos da sua própria habilidade. A lealdade dos clientes não é um ativo. Lealdade está baseada no respeito. E o respeito está traduzido pelo modo que a empresa mostra a cara nestes mercados. Não conversar, e não participar é uma péssima opção. Se as pessoas não estiverem engajadas no diálogo dentro ou fora da organização, outra empresa irá ocupar este lugar. Isto não é brincadeira. É sério. Pense nisso! [Locke, 48]

Assim, os micromercados se tornam cada vez mais coesos. Pois a massa disforme de micro-audiências e comunidades digitais interage num contexto inusitado. Este é o grande desafio para as corporações, tanto para os mega portais como para empresas comerciais que necessitam estar presentes neste meio multimídia. Como participar?
Não há fórmulas prontas. Mas garanto que as estratégias tradicionais não funcionam. Temos que procurar práticas não usuais para lidar com essa novidade. As empresas devem admitir que não sabem conversar com os mercados. Aliás, empresas não falam. Não são humanas. Pessoas conversam com pessoas [Locke, 48].

Os novos mercados têm características diferenciadas. Internet é um mercado exótico. Outro mundo. As empresas devem entender que qualquer ação deve atender a estas particularidades. Um novo bom senso está sendo formatado. De baixo para cima, estamos criando uma nova forma de relacionamento entre pessoas.

E isso não é tão complicado. Empresas podem incentivar a diversidade de vozes espalhadas pela rede. Esta cumplicidade poderá gerar um maior conhecimento desses mercados. Pois marketing não é apenas propaganda e divulgação comercial. É a compreensão inequívoca das tendências dos mercados. Apoiar, financiar e promover esses projetos é o atalho para o futuro.