1.5 Corpo coletivo :: o comum :: a esfera pública

Já no século XVIII, o filósofo holandês Baruch de Spinoza dizia que o espaço social é constituído por encontros de corpos misturados com o que os afetam e o que afetam outros corpos, de onde surgem novos registros de relações e práticas sociais não codificadas, mas num modo de expressão comum, a partir de um plano comum de encontros de corpos e idéias.

Entendemos que é na confluência desse tipo de pensamento de misturas de corpos potencialmente produtivos, que a noção do comum retorna com vigor nas discussões sobre as redes sociais nos dias de hoje, como, por exemplo, na recente obra Multidões, de Hardt e Negri:

Duas características de multidão tornam particularmente clara a contribuição da rede à possibilidade de democracia hoje. A primeira poderia ser apresentada como seu aspecto ‘econômico’, a não ser pelo fato de que a separação entre as realidades econômicas e os outros terrenos sociais rapidamente se esfacela aqui. Na medida em que a multidão não é uma identidade (como o povo) nem é uniforme (como as massas), suas diferenças internas devem descobrir o comum [the common] que lhe permite comunicar-se e agir em conjunto (HARDT & NEGRI, 2005, p. 14).

O comum, assim definido, seria o espaço comum, constituindo condições de reconhecimento coletivo de questões que afetam a vida das pessoas envolvidas. Costa, a esse respeito, comenta:
[...] o indivíduo, ao reconhecer suas próprias questões, suas preocupações e seus conflitos numa esfera pública determinada, consegue se perceber como pertencendo a um coletivo, a uma comunidade que compartilha de seus interesses [...] Na medida em que não vejo minhas próprias questões e preocupações sendo colocadas em comum por uma coletividade, não posso me sentir como pertencendo plenamente a essa mesma comunidade. Posso vir a participar, mas a dimensão de ‘pertencimento’ é mais complexa que a simples participação. Do mesmo modo, para que uma coletividade consiga o engajamento de alguém em seus problemas, é preciso que ela o inclua em seu fórum de discussões, que ela desenvolva, portanto, não exatamente estratégias de ‘mensagens’, mas estratégias de ‘escuta’. (COSTA, 2005, p. 9).

Nesse mesmo sentido, como afirmam Hardt e Negri, o comum que compartilhamos não é algo que descobrimos, mas algo que é produzido, como podemos observar na seguinte citação:
[...] Nossa comunicação, colaboração e cooperação não se baseiam apenas no comum, elas também produzem o comum, numa espiral expansiva de relações. Esta produção do comum tende atualmente a ser central a todas as formas de produção social, por mais acentuado que seja seu caráter local, constituindo na realidade a característica básica das novas formas dominantes do trabalho hoje. (HARDT & NEGRI, 2005, p. 14).

Indo além, esses autores dizem que a humanidade transforma a si mesma, sua história e sua natureza nessa nova forma de produção. Para eles, então, o problema não consiste mais em decidir se essas técnicas humanas de transformação devem ser aceitas, mas aprender o que fazer com elas e saber se funcionarão em nosso benefício ou em nosso detrimento.

É necessário, neste momento lembrar que nossa dissertação teve como motivação também uma base empírica, que será mais bem desenvolvida a partir do Capítulo 2, quando apresentaremos as possibilidades que as novas tecnologias de comunicação e informação têm em trabalhar ou não em nosso benefício, quando poderemos argumentar conjuntamente com os mecanismos de participação em políticas públicas.

Por ora, introduzimos a noção de esfera pública enquanto palco de nossa presença em conversações políticas. Nesse contexto, podemos dizer com Costa que
"O que nos importa é o fato de que indivíduos reais se reconhecem muito pouco no modo como as questões políticas e sociais são defendidas como relevantes pela mídia e pela classe política atualmente. Essa questão provoca, muito naturalmente, uma espécie de (des)investimento de atuação da parte de cada um na esfera pública, no espaço comum onde nos reconheceríamos como pertencendo a um determinado grupo social". (COSTA, 2005).

Comentários

Gabriel Tarde :: A Opinião e as Massas

O que a coisa social, como a coisa vital, deseja acima de tudo é propagar-se e não organizar-se.

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